domingo, 3 de agosto de 2008

Israel- Palestina, verdades sobre um conflito 5




O que é ser Judeu?


Como já se viu, não há um critério objectivo- o critério legal é o de que nasceu de mãe judia, ou se converteu à religião judaica e não pertence a qualquer outra...

Os judeus formam uma nação?

Na definição medieval, nação é um conjunto de pessoas que nasceu num determinado lugar e que tem uma origem comum.- a língua e a religião são alguns dos elementos dessa origem comum; aquilo que os antropólogos modernos chamam de cultura.
A Revolução Francesa marca o nascimento da nação moderna, baseada num conjunto de dados permanentes ao longo dos séculos: comunidade de território, língua, história e cultura.
Todavia, nenhum critério científico permite definir que uma comunidade de pessoas constitui uma nação.

No decurso dos últimos dois milénios os judeus não estiveram ligados nem pelo território, nem pela língua- a maioria adoptou a língua do local aonde se fixou, ficando o hebreu relegado para as cerimónias religiosas, nem pela história, uma vez que as trajectórias nos diversos países seguiram os costumes locais desses mesmos países.Somente na Europa de Leste e na Rússia, dos séculos XVIII e XIX, adquiriram características quase nacionais.

Os Hebreus- a) lenda b) História

A) Lenda

Muito resumidamente, a origem, nesta dimensão, remonta a Abraão, que recebeu a ordem do Senhor para deixar o seu país e família e ir para um país que lhe seria indicado.Abraão instala-se em Siquem, numa localidade hoje conhecida como Napluse. Depois são conduzidos ao Egipto, aonde são reduzidos à escravatura, sendo salvos por Moisés, errando pelo Sinai, aonde Moisés recebe os Dez Mandamentos.Depois instalam-se na Palestina, a terra prometida por Deus.Na nova capital, Jerusalém, eleva-se o Templo..Depois, o Templo é destruído e os Judeus expulsos ou reduzidos à escravidão, até que , em 537, são autorizados a regressar e a reconstruir o Templo...

B) A História

Os romanos conquistaram a Palestina no século I AC.Em 70 D.C., Tito envia um exercito para esmagar a revolta dos Judeus contra Roma e ocupa Jerusalém.sessenta anos mais tarde, Hadrien esmaga outra revolta e os Judeus ( que tinham permanecido)são expulsos da Palestina- a sua Diáspora começa, todavia, no século I A. C: encontram-se em todos os centros mercantis do Mediterrâneo ocidental..Muitas dessas comunidades irão desaparecer ao longo dos séculos, ao fundirem-se com as populações locais.

A condição dos Judeus varia ao longo dos séculos aonde, dispersos pelo mundo, constituem sempre uma minoria.Assim, umas vezes vivem no seio das populações, sem qualquer segregação ou limitação ao nível das profissões.Com as Cruzadas, são impedidos de exercer a posse da terra e dedicam-se aos empréstimos em dinheiro e ao comércio, favorecido pelo contacto com a Diáspora, o que dará lugar a ódios e invejas, fazendo deles bodes expiatórios dos governos.A partir de 1492, com a reconquista muçulmana da Península eles são expulsos desta, refugiando-se, muitos, no império otomano, nomeadamente em Constantinopla.

Com a Revolução Francesa, a dimensão religiosa perde importância e os Judeus emancipam-se.
A tendência para a assimilação será contrariada por uma nova forma de hostilidade em relação aos judeus, o anti-semitismo e pelo desenvolvimento paralelo do movimento sionista.No século XIX esta hostilidade será alimentada por uma nova pretensa ciência, a das "raças"- uma onda de classificação de povos apodera-se do mundo científico e intelectual e os judeus são vítimas destas mesmas doutrinas: assim, os arianos e os semitas constituiriam os 2 povos que teriam estado na origem da civilização e que depois teriam iniciado uma luta feroz.É sobre esta visão que o anti-semitismo se apoia e também no renascer do nacionalismo que varre a Europa, sendo acompanhado pela xenofobia.

Uma imagem dos judeus como um poder silencioso, sempre presente e muito riquíssimo ( não obstante a grande pobreza das massas judaicas) alimenta o anti-semitismo.

O sionismo político surge então, na segunda metade do século XIX, como resposta a esta nova forma de fobia.

Como se viu, o sionismo é o símbolo do regresso à terra prometida ( aqui, recorde-se, estamos no domínio do mito).Em todos os tempos os Judeus iam em peregrinação a Jerusalém.Todavia, o projecto sionista é um projecto espiritual e estatal.São os amantes do Sião quem organiza , a partir de 1881, a primeira vaga de emigração moderna para a Palestina- até 1903, entre 20 e 30.000 pessoas rumam à Palestina..O testemunho foi então tomado pelo sionismo que defende a criação de um estado judaico..Este projecto tem a sua origem não só com o assassinato do Czar Alexandre em que, entre 1881 e 1884, se multiplicam as medidas anti judaicas - aparece o numerus clausus nas universidades, as restrições à liberdade de circulação, a expulsão dos judeus de Moscovo, etc, como também com o caso Dreyfus (em França- 1890) que gera uma onda de anti-semitismo que choca um jovem jornalista, de nome Theodor Herzel (1860- 1904).Preconiza que os judeus formam um povo e devem, portanto, ter um Estado, na Palestina ( sendo que outros já haviam chegado a defender, um Estado a ser criado no Uganda ou na Argentina).

O primeiro congresso sionista tem lugar a 29 de Agosto de 1897.

Por seu turno, na Rússia , no dia 15 de Maio de 1948, aconteceram perseguições que se traduziram em massacres , o que levou á segunda vaga de emigrações para a Palestina.

Após a Primeira Grande Guerra, com o reordenamento dos estados, acabam por ficar dispersos por diversos países.

O movimento sionista foi, durante muito tempo, minoritário.Muitos judeus emigraram para os EUA e para diversos países ocidentais.

O sionismo não é o único movimento organizado dos Judeus.Em 1897 é criado o Bund (União Geral de Operários Judeus da Lituânia,Polónia e Rússia.Seria um concorrente do sionismo, até aos anos 30, afirmando-se nacionalista e socialista, baseando-se em princípios de classe e preconizando uma língua comum -o yiddish.Defendem também uma autonomia político cultural comum, na linha das teorias defendidas pelos que fora designados por " austro-marxistas".mais tarde este movimento será esquecido.

A criação do estado de Israel, consagra a vitória do sionismo, vitória tornada possível pelo anti semitismo hitlariano e o genocídio, apesar de a emigração para Israel ter sido minoritária, tendo a maioria dos judeus preferido emigrar para Nova York ou para outros Estados da Europa.

A visão sionista, apesar de alimentada por ideias socialistas, estava impregnada de uma certa visão colonialista: os judeus acreditavam na sua superioridade e no seu papel motor, ao mesmo tempo que tinham consciência que o que queriam para a Palestina era o mesmo que os árabes....
Notas
Não há um conceito verdadeiramente científico de nação.Dizer o que é uma nação parece ser um conceito com uma boa dose de subjectividade- aceitar que um povo é uma nação está, pois, muito ligado às lutas políticas concretas...
Por outro lado, de salientar que houve várias propostas para locais aonde se fundaria o estado de Israel e ainda que os judeus tinham consciência da oposição dos árabes na zona aonde está o Estado de Israel, a tal ponto que os árabes apelidam a independência de Israel como " a grande catástrofe"...
Por outro lado, em grande parte, a justificação para o local efectivamente escolhido, funda-se numa história mítica do povo judeu naquela zona do globo...